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domingo, 15 de novembro de 2015

RALI DA CATALUNHA: AS CRÓNICAS DE JOÃO FERNANDO RAMOS


CRÓNICA DIA 1 – Segunda 19/10
O REGRESSO AO WRC

Cá estamos em Salou, pela quarta vez, numa das mais fabulosas provas do Mundial de Ralis.
A viagem é sempre longa, vendo uma Espanha que renasce da crise, que investe forte na agricultura e onde se percebe claramente um crescimento nas unidades industriais e dos parques logísticos.  É uma diferença bem clara do sentimento que temos ao atravessar Portugal. Este primeiro dia é reservado à verificações documentais e à confirmação do plano de reconhecimentos. Há sempre muitas novidades, e uma delas foi a descoberta de que o carro com que vamos fazer os reconhecimentos não tem pneu suplente. Coisa normal num carro de série, mas nada recomendável nos caminhos por onde vamos andar amanhã e depois.
A equipa de assistência só chega amanhã e tínhamos que encontrar uma solução. Na fila da confirmação da papelada aparece um daqueles pilotos do nosso segmento, com quem já fizemos este rali umas vezes. São dois bons amigos. O navegador bem mais velho que o “puto” que quer ser campeão do mundo, um destes dias. São daquelas pessoas de quem se gosta e com quem gostamos de estar. Na conversa a pergunta;
- Que carro trazes este ano?
- Um DS 3.
- Boa…pá. Vais-me salvar.
- Então porquê?
- Preciso de uma roda suplente …para um Citroen, com quatro furos.
- Claro amigo. Vem lá à nossa assistência e levas uma das nossas.
Mesmo numa prova desta dimensão onde temos os melhores pilotos do mundo, há uma boa fatia do pelotão que aqui está porque tem talento e muita paixão. Estamos todos em competição, mas ninguém recusa uma ajuda, um conselho, ou mesmo uma bebida terrivelmente gelada no fim de cada dia. Não importa a nacionalidade, o carro, a marca do fato de competição. Estamos aqui para ter uma semana plena de prazer e todos querem celebrar no final ter conquistado mais um rali terminado, de preferência com uma medalha ao peito.
O José Janela ainda tem algum trabalho para fazer nos mapas e no plano para amanhã. Eu revi os vídeos para ter mais algumas ideias do que vamos encontrar de novo. Os reconhecimentos começam às oito da manhã e o dia será certamente logo, mas saboroso. Agora, que até já temos pneu suplente, certamente nem um furo há para contar ao cair da noite.
Ainda estão a tempo, venham até aqui ver um rali único no mundial. A coisa promete!

CRÓNICA DIA 2 – Terça 20/10
O INÍCIO DOS RECONHECIMENTOS

Hoje foi um dia duro com o reconhecimento de 6 especiais de classificação.
Quatro em terra, com a fabulosa passagem pelo “Terra Alta” e os seus exigentes 35 quilómetros e duas em asfalto. Este rali mantém os dois pisos, está no WRC e isso não é nenhum problema. Como eu gostava de ter o Rali de Portugal com terra e asfalto…
Este ano há mais umas novidades. No primeiro dia não temos assistência intermédia. A dupla passagem pelas classificativas de terra é feita sem uma vinda ao parque, estando a manutenção do carro apenas por nossa conta. É mais um desafio para as equipas e principalmente para nós que vamos ter que fazer de tudo para chegar com o carro ao fim do dia, sem grandes crises. Estou curioso para ver o andamento dos pilotos da frente perante esta fortíssima limitação na possibilidade de terem o carro revisto antes da segunda passagem pelas especiais e logo na terra. Por nós, o melhor é mesmo que nada avariei. Eu e o Janela temos um ligeiro problema com as aulas práticas de mecânica.
Nos reconhecimentos temos que fazer tudo com a máxima atenção. Só podemos passar duas vezes em cada especial e temos que saber tirar muito bem as notas de andamento e os perigos escondidos em cada especial. É fabuloso fazer este trabalho, desafiando toda a nossa capacidade de concentração, num carro de série, com pneus de serie…que podem furar. Com arranjámos um suplente, hoje foi um dia tranquilo. Tenho a certeza que se não estivesse a quinta roda na mala hoje teríamos um dia desgraçado. O Janela fez um belo trabalho na preparação do dia e a esta hora ainda está ali de volta dos mapas a preparar o trabalho de amanhã.
Já chegou a equipa, a RMC e o nosso carro de corrida. O Roberto e o Gaspar garantem que está ali uma grande máquina. Vamos ver se os pilotos estão à altura. Só amanhã à noite me sentarei no Mitsubishi para acertar os bancos, a posição do volante e ter a primeira “lição” de afinações e eletrónica. Estamos ansiosos por ver como é o carro deste ano e como nos sentimos dentro de uma corrida que é uma das mais bonitas e mais duras do mundial de ralis.
Amanhã o despertador toca lá para as seis e um quarto para estarmos na primeira especial antes das oito. Depois contamos o dia e mostramos as primeiras imagens do carro em que vamos alinhar na equipa RMC, neste rali.

CRÓNICA DIA 3 – Quarta 21/10
AGORA É QUE VAI COMEÇAR!...

Terminámos ao fim da tarde o reconhecimento de todas as especiais. É um trabalho de concentração e de muita atenção aos detalhes, onde eu e o Janela temos que estar totalmente empenhados.
Só podemos fazer duas passagens em cada uma das especiais e as notas têm que estar certas à primeira. A experiência das três edições anteriores neste rali tem sido fundamental. Há alguns troços repetidos, começamos a saber os atalhos para ganhar tempo nos reconhecimentos, temos uma noção mais real dos tipos de piso em cada uma das regiões, permitindo gerir melhor o andamento e o carro.
Todos os anos é diferente este rali, com novas especiais e mais desafios para os pilotos. Este ano há mais limites na assistência e os troços são verdadeiramente exigentes na condução e no físico. Um belíssimo traçado onde ninguém pode apostar hoje num claro vencedor. Gosto dos ralis assim, quando me obrigam a pensar em tudo e a nunca estar confortável com o que aprendemos no ano anterior. É sempre a primeira vez.
Amanhã, quinta-feira,  teremos a partida simbólica e a super-especial de Barcelona, no centro da cidade, num dos jardins mais emblemáticos da capital da Catalunha. Serão os clássicos a animar a festa que junta sempre cerca de cem mil pessoas. Depois o pelotão do WRC onde orgulhosamente vamos estar. É uma tarde fabulosa de automóveis e emoções. Hoje testámos o carro e a sensação foi muito boa. Parece que o tinha guiado na semana passada…mas a verdade é que não entrava num carro de competição desde o rali de Portugal. Espero ganhar de novo “a mão” rapidamente e fazer já amanhã um belo começo. Estamos animados e até aqui, tudo a correr dentro do plano que traçámos para esta prova do Mundial de ralis.
Cá estarei à noitinha para vos contar como foi a festa em Barcelona.

CRÓNICA DIA 4 - Quinta 22/10
O GRANDE DIA

Hoje a organização do rali da Catalunha desafiou os pilotos e as máquinas para um dia inteiro, sem assistência. Na etapa de terra, quatro especiais, feitas por duas vezes, apenas com uma pausa para troca de pneus e as reparações no carro apenas com os pilotos e o material que estivesse dentro do carro no começo do dia. Partimos com a noção de que teríamos que pensar bem no ritmo de cada especial, poupando a mecânica do Mitsubishi. Fizemos assim nas três primeiras, onde me fui também adaptado ao carro. Não guiava num troco de terra desde o rali de Portugal. Na última especial da manhã, Terra Alta, com 35 quilómetros de exigências máxima, começámos a ouvir um barulho forte no carro. Algo que batia num ritmo certo. Foi depois de uma entrada mais violenta numa das passagens de asfalto, no meio do troço. Olhei para o computador de bordo que nada indicava. A tração estava aparentemente igual e o carro seguia perfeito. Temi que fosse algo num diferencial, mas não abradámos o ritmo. Perdido por dez, pedido por cem…
No final da especial, já na estrada de alcatrão, o barulho não diminuía. Fomos trocando opiniões do que seria, do que fazer. Não queríamos desistir, mas…parecia inevitável.
Resolvemos seguir até ao reagrupamento e depois até à mudança de pneus onde tínhamos a opinião à distância dos mecânicos e tentaríamos dar o nosso melhor e arranjar o carro.
Entramos no parque, parámos o carro, e lá me deitei debaixo do bicho para ver se entendia aquela “tac, tac, tac...” . De longe a sugestão de abanar os diferenciais, perceber se tinham cedido, de verificar as transmissões. Parecia tudo normal…
Depois a ideia de tirar as rodas e perceber se alguma estava empenada, batendo no sistema de travagem. O Janela agarrado à máquina lá desapertou tudo e percebemos que o “tac, tac, tac…” era mesmo dali. Nem imaginam a nossa alegria e o abraço que fui dar aos mecânicos que ajudaram à distância a perceber a avaria.
Rodas novas e lá fomos para nova ronda de troços, que acabou já de noite, numa especial particularmente exigente. Estamos em prova na 59 posição da geral.
Amanhã o rali é em asfalto e temos de novo um dia cheio, mas com assistência pelo meio.

CRÓNICA DIA 5 - Sexta 23/10
UM DIA FELIZ

Hoje cumprimos o terceiro dia de Rali da Catalunha, que depois da terra de ontem, passou a ser em asfalto. Tínhamos oito especiais de classificação no menu, de um dia longo.
O começo foi com uma curta, mas exigente especial de pouco mais de sete quilómetros. Chama-se Porrera e foi porreira para percebermos que a afinação da suspensão e o acerto dos travões estavam perfeitos. Este é o melhor carro que guiei desde que estamos na RMC. Equilibrado, com um motor fabuloso, curva lindamente. Temos tentando tirar o melhor partido da máquina, mas sabemos bem as limitações que temos numa prova com esta dureza.
O dia começou tranquilo, com muitas bandeiras de Portugal nos troços e alguma cautela na condução. Na última especial da manhã tivemos um pequeno problema na injeção. Coisas causadas por um combustível de pior qualidade…que a equipa resolveu prontamente. Perdemos uns dois ou três minutos, mas o carro voltou perfeito à sessão da tarde. O gancho de La Figuera é o ponto mais emblemático deste rali. Não é uma passagem simples. Chegamos muito rápido e temos que inverter completamente a direção num curto espaço, ganhando de novo velocidade para uns duzentos metros de reta. Há umas largas, muito largas, centenas de pessoas naquela curva e nada pode correr mal. Preparámos bem o momento, que correu francamente bem, mas a maior surpresa estava na chegada ao parque de assistência. Um grupo de uns cinquenta portugueses recebeu-nos com uma aplauso garantindo que a nossa passagem no ponto “g” deste rali, estava entre as dez melhores. Não sei se é verdade, mas foi tão bom estar com eles naquele momento de celebração onde tirámos dezenas de fotos e contámos tantas histórias deste e de outros ralis. Este é mesmo um desporto único, onde estar numa prova desta dimensão é uma coisa difícil de descrever, mesmo para um jornalista. Vou daqui mais rico depois de falar com estas pessoas que gostam tanto de ralis. Alguns deles estão a trabalhar nesta Europa e tiram férias para vir aqui. Amanhã será o último dia, de novo sem assistência intermedia. Este rali é um grande desafio até ao fim. Queremos terminar e se possível, ficar entre os 50 primeiros. Hoje quero dizer obrigado a todos os portugueses que fizeram aqui a festa connosco. Foi fabuloso. Amanhã será ainda mais saboroso.

CRÓNICA FINAL - Domingo 25/10

É uma sensação única terminar uma prova como esta. Quando começamos a reconhecer as especiais, só pensamos no momento de pegar no carro e entrar nesta fabulosa prova. Depois começa a corrida e o único pensamento é fazer tudo bem, para terminar a prova. Foi um rali duro, cheio de desafios, mas onde foi uma honra estar com o apoio de tantos e tantos portugueses que nos saudaram de forma tão calorosa em todos os momentos onde nos conseguíamos encontrar. Tirámos centenas de fotos com eles. São sempre genuínos no aplauso e na alegria de estarem ali ao nosso lado, vendo naquele carro uma bandeira de Portugal. Quero dizer a todos que nunca esqueço estes momentos. Hoje termina a semana de WRC, o capacete já está arrumado, o fato pronto para ser lavado e guardado e os sonhos apontam de novo para o rali de Portugal, lá para maio do novo ano. Até lá não deverei ter mais corridas, mas estas duas provas do Campeonato do Mundo já nos enchem a “barriguinha” de ralis. Aqui todos os pilotos são destacados da mesma forma na chegada e na partida. Todos têm direito a um trofeu e a uma pequena entrevista do pódio, onde celebrámos a nossa medalha com a pequena multidão que recebeu a caravana em Salou. Disse ao jornalista que me entrevistou, que adoro este rali e que quero voltar para o fazer pela quinta vez. Se tudo correr bem, será um até para o ano com um mini programa no WRC que inclui Catalunha e Portugal. Este ano fomos 51º da geral, numa das melhores listas de inscritos de sempre. Vale o que vale, mas para nós foi um prazer guiar este carro da RMC, preparado de forma exemplar pela equipa do Roberto Mendes e do “nosso” Gaspar leite. Obrigado equipa. Estamos juntos para o ano.

*por João Fernando Ramos - piloto de ralis

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