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domingo, 27 de outubro de 2013

CRÓNICA - JOÃO FERNANDO RAMOS NO RALI DA CATALUNHA: DIAS 5 E 6


DIA 5 – finalmente o arranque!... nem sempre se arranca…
"Ontem, dia longo, com muitas emoções e sentimentos bem contraditórios. Saímos para Barcelona ao meio dia. Uma longa viagem de auto-estrada com um carro de corrida é uma coisa muito pouco agradável e confortável, mas vale bem a pena. A cidade esperou o WRC em festa, com milhares de pessoas nas ruas a aplaudir a comitiva. A partida só foi ao cair da noite, com muitos portugueses e aquela paisagem da praça da Catedral entregue aos adeptos destes fabuloso desporto.
Começámos como sempre, com cuidado para não errar na adaptação ao carro. A primeira classificativa da noite era sinuosa, a  segunda era o oposto, com longas retas daquelas que me metem um medo terrível, com o Mitsubishi a voar baixinho e eu a rezar para não acertar em nada.  Depois uma das míticas especiais deste rali, Riudecanys. Estava tudo pronto, diferenciais ligados, ALS na pressão certa, controle de arranque ligado, 5,4,3,2,1…gooooo…..e nada. O carro ficou embraiado e não andava.
O Janela com a pergunta que se impunha;
- Então? 
Eu com a resposta que não tinha...
- Calma!! Parece que é o diferencial da frente. Vou tentar bloquear o controlo electrónico.
Senti o desânimo no Janela, ao mesmo tempo que eu tentava reprogramar o carro na esperança desesperada que ele começasse a andar. Um minuto e tal depois, luz a piscar no painel e o carro dá um solavanco.
- Vamos!
Gritei ainda cheio de dúvidas de ter encontrado uma solução para nos levar até à assistência. A coisa funcionou e lá fomos lentamente pela especial e depois na ligação até Salou.
O carro cheirava a queimado, e quando entrámos na zona de controlo víamos bem o fumo a sair da frente.
- Gaspar. Acho que temos o diferencial da frente partido!
- Mas João…como é que está o carro?
Lá contei como o tinha conseguido colocar a andar e a ordem foi para ir de imediato para a assistência.
Aquelas almas já tinham tudo pronto quando chegámos e em 45 minutos deixaram o carro novo, para continuarmos em prova. O tempo perdido não é mesmo nada importante. Aqueles bravos da minha equipa merecem que dê o meu melhor e deixe o carro, sem mazelas, num lugar simpático."

DIA 6 - Agora venha a terra
"Este rali tem disto! Primeiro uma etapa nocturna, com a partida de uma cidade mágica, depois um dia de asfalto com tudo aquilo a que um piloto que não goste de monotonia tem direito, e depois a terra para mostrar quem são os verdadeiros aficionados de um desporto que vai mesmo a todo o lado.
Hoje o dia começou cedo, outra vez! Salou acordou com sol intenso, e a meio da manhã estavam 30 graus na montanha. Imaginem quantos estariam dentro do carro… nem é bom pensar nisso, mas sobrevivemos. No menu da manhã uma especial com  42 quilómetros, outra com 26 e uma com apenas 16,5 quilómetros. À tarde nova dose de 42, depois 26 e para terminar o dia uma especial no meio do jardim de Salou com cerca de 2 quilómetros. Partimos descontraídos, sem nenhuma pressão, mas com a firme vontade de não cometer erros e levar o carro até ao fim. Nos primeiros quilómetros já estavam patentes os sinais das dificuldades, com vários despistes e algumas avarias. A meio da manhã já havia mais de dez abandonos. Lá fomos tentando andar ao ritmo de alguns pilotos do nosso campeonato, mas não foi fácil.
Por todo o lado há bandeiras portuguesas e aplausos na nossa passagem, mas no gancho de Priorat a coisa é mais simbólica. Fiz o melhor possível para dar espetáculo naquela passagem que marca as fotos mais emblemáticas deste rali da Catalunha.
O dia terminou sem grandes histórias, com os meus braços ligeiramente doridos, tal como a perna direita que hoje teve que se pendurar firmemente nos travões umas quantas vezes. O carro está perfeito e a equipa praticamente não teve trabalho connosco. Já os outros pilotos da RMC vingaram-se e deram mesmo muito que fazer. Os ralis são assim, uns dias sem problemas, noutros a parecer que o mundo se virou contra nós.
Esperemos que a terra não nos traga surpresas e que amanhã vos conte a festa que estamos já a imaginar se conseguirmos terminar esta duríssima prova do mundial de ralis.
De hoje fica também a especial de Salou, onde o piso escorregadio deixou fazer algum espetáculo. No meio das escorregadelas e já com o Janela a avisar para o excesso de travão de mão a rodar o carro, lá ficámos atravessados em frente da bancada mais concorrida. Assim todos viram quem nos apoia nesta aventura, onde curiosamente acabamos por ser um “orgulho” para as centenas de portugueses que por aqui andam.
Obrigado a todos pelo apoio, pelas bandeiras e pelos aplausos. Levo daqui mais algumas lições de vida, daquelas que sei guardar e recordar.
Até amanhã, para o derradeiro dia do Rali da Catalunha e da nossa aventura no mundial."

por João Fernando Ramos

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