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sexta-feira, 11 de abril de 2014

VODAFONE RALI DE PORTUGAL: AS CRÓNICAS DE JOÃO FERNANDO RAMOS


DIA 1: "O SÃO PEDRO DEVE ESTAR ZANGADO COM OS RALIS..."
O primeiro dia de reconhecimentos começou às sete da manhã, com um menu de cinco especiais para verificar, e a chuva como companhia.Os pisos estão cobertos de água, que levou a terra, e transformou os troços em caminhos de cabras, onde não foi fácil passar com os carros de série. Eu e o José Janela já levamos uns anos disto e já não nos chega à memória reconhecer um rali nestas condições. 
A calma dos pilotos do mundial contagiou toda a comitiva e lá conseguimos praticamente todos terminar o dia, com a missão quase cumprida. Apenas não conseguimos passar na especial de Ourique. 
Uma das ribeiras transformou-se num rio furioso e galgou uma ponte deixando a estrada inundada. O mesmo aconteceu em Almodôvar, onde a água chegava a meio da nossa porta, numa travessia arriscada a um ribeiro no meio do troço. Ficaram lá uns quantos... 
A organização estava atenta e até um trator foi colocado numa das mais ingremes subidas para ajudar os carros de duas rodas motrizes, mas no meio de semelhante temporal, pouco havia para fazer a não ser guiar com cuidado e esperar que o santo padroeiro das corridas esteja mais simpático que o outro que trata do tempo. Foi um dia muito duro, mas os ralis são assim. Amanhã voltamos à serra, a partir das seis e meia da manhã para reconhecer quatro especiais e depois testar o carro de prova. 
Estamos desertos por começar a competição, de preferência com sol, já que estamos no Algarve, que se gaba de ser um sítio de calor e praia.
Boa viagem para todos os que agora rumam ao Rali,e lembrem-se, em primeiro lugar sempre a segurança.

DIA 2: "O SOL CHEGOU AO RALI!"
A manhã começou cedo, mesmo muito cedo.Às 5h30 despertar, logo depois um pequeno almoço mais reforçado para um longo dia, a que se seguiu de novo a estrada para o reconhecimento de mais quatro especiais, a começar… às 6.30 da manhã. O céu ainda tinha estrelas, mas as nuvens ainda deixavam alguns aguaceiros encharcar ainda mais os troços já muito castigados pelo temporal.
A tarefa não foi fácil, mas pouco depois da uma da tarde conseguíamos atingir finalmente o fim desta primeira parte do rali. Ninguém gosta de fazer reconhecimentos em carros de série, com pneus normais, ou de competição normalmente muito gastos, naquela lama toda - imaginam as dificuldades para manter o carro no caminho certo. O mais complicado foi mesmo passar em Ourique. São pouco mais de 25 quilómetros que estavam praticamente intransitáveis. Vamos ver como vai estar no dia de prova…
Depois foi hora de um almoço com a equipa na nossa assistência, com a Paelha do “patrão” Roberto a fazer sucesso. Estava deliciosa, mas o Janela preferiu massa. Gostos não se discutem…
Ao fim da tarde chegou o Shakedown, com a Rita La Rechezoire da equipa do Só Visto da RTP a ser a primeira a sentar-se na cadeira reservada ao co-piloto. Ela fechou os olhos no meio da especial, mas garantiu que adorou a experiência. Também gostámos muito de a cá ter. É notável a simpatia de todos os homens desta equipa, quando chega uma mulher bonita. A reportagem fica para uma das próximas edição do programa na RTP. Mais duas passagens em Vale de Judeu para testar a máquina e estava feito o trabalho de hoje.
Já passa das 23 e depois de fechar esta crónica vou certamente adormecer assim que deitar os meus cabelos brancos na almofada. Amanhã começa o rali partindo no Estoril reavivando tradições do passado, rumando a seguir à super-especial nos Jerónimos, bem no coração de Lisboa e o dia voltará a ser longo, com o despertar a ocorrer às 6h30.
Até amanhã e não deixem de acompanhar este rali que vai estar cheio de emoção e será certamente um dos mais duros dos últimos anos.

DIA 3: "FINALMENTE COMEÇOU O RALI!"
Mais uma alvorada antecipada…Ao nascer do dia, viagem para o Estoril, para um dia de contacto direto com os melhores adeptos do mundo, e depois a partida simbólica da grande corrida. É gratificante sentir o carinho que os portugueses têm por este desporto e a forma simpática e calorosa como nos aplaudem e incentivam a fazer uma boa prova. O almoço foi no casino, com todos os pilotos e alguns convidados. É sempre um dos momentos da prova, onde todos somos iguais, nem que seja ao redor de uma mesa, sem carros para fazer as diferenças.
A competição começou nos Jerónimos, em Lisboa, com uma multidão a ocupar as laterais do CCB e grande parte dos jardins. Todos demos o nosso melhor, mesmo sabendo que se pode perder o rali naquela especial tão curta. O brilho do nosso Mitsubishi só chegou depois das oito da noite e gostei muito do carro. Podemos dizer que começámos bem.
Na espera decidimos ir procurar um café. A escolha foi para o mais próximo, na esquina frente ao mosteiro. O balcão de vidro estava depois de uma porta coberta por um toldo onde se lê “Flor dos Jerónimos”. Ser uma das caras da RTP tem depois estas coisas…
Fomos recebidos pelo senhor Aníbal, que fez questão de dizer que não tem nada de parentescos com o outro senhor, com o mesmo nome, de um outro palácio ali perto. A conversa foi ainda mais saborosa que as deliciosas natas que acompanharam o café, oferta do senhor Aníbal. Fizemos as fotos do costume, trocámos gargalhadas e ficámos clientes e amigos. Quando voltar a Belém, está prometido novo café, com o Aníbal. 
O rali começa a sério amanhã, com muitos desafios, para os quais estamos preparados. Houve ainda tempo para recolher informações das classificativas de quem lá treinou ainda hoje, os concorrentes da promoção que se vão juntar esta Sexta-feira à festa.À noite, vos contarei mais um dia no melhor rali do mundo!

DIA 4: "UM DIA ISENTO DE PROBLEMAS"
Os ralis do Mundial são uma verdadeira caixa de surpresas. São provas muito longas e duras,com grandes pilotos a imporem um ritmo que nos obriga a todos a “mostrar serviço”. A experiência já nos leva a ter calma e a pensar a prova em conjunto, gerindo o desgaste do carro e as nossas forças da melhor forma. Como dizia ao Janela no regresso a casa, hoje foi um dia sem grandes histórias. 
Tivemos apenas um susto na segunda especial do dia, quando quase no final, encontrámos um Fiesta de troféu praticamente destruído, atravessado na estrada. O Janela conseguiu olhar logo para dentro do carro e percebeu que o piloto estava inconsciente. O navegador estava de pé, já fora do que restava do carro, mas completamente perdido. Fizemos o que nos competia e parámos para ajudar. Percebemos que o melhor era mesmo pedir outra ajuda e na falta de rede de telemóvel a solução foi fazer os últimos dois quilómetros e pouco da especial a fundo para chegar junto da equipa do INEM que está no final do troço. Lançado o alerta, seguimos preocupados com o estado do nosso companheiro de aventura. 
Este é um desporto ariscado, onde a segurança é sempre uma preocupação central. Ver um acidente é coisa complicada para quem vai entrar de novo numa especial para andar no limite. Uns quantos quilómetros à frente, já na estrada nacional, estava outra equipa do INEM. Parámos para falar com eles e lá chegou a informação que não era um caso grave, apenas uma quebra de tensão de um jovem piloto que não ganhou para o susto. Ainda bem.
O nosso dia começa cedo, com um pequeno-almoço reforçado. Depois duas horas e meia de carro de corrida com uma primeira ronda por três especiais. Hoje todas na casa dos vinte e tal quilómetros. No carro há sempre barras energéticas, alguma fruta e água. É fundamental estarmos bem alimentados e hidratados para manter os níveis de concentração e a forma física ideal ao longo da prova. Depois o regresso à assistência para meia hora de pausa, com os mecânicos a trabalharem no carros e os pilotos a comer um prato de massa com tomate, vegetais e fruta. A tarde repete a ronda da manhã, com as especiais mais degradadas e uma maior preocupação com o carro. Regressamos ao final do dia, hoje por volta das vinte, para quarenta e cinco minutos de trabalhos dos mecânicos e uma nova refeição, agora com carne grelhada, verduras cozidas, salada e a inevitável… massa.
As noites são sempre curtas, com o sono a ser embalado com as imagens e as emoções de um dia a fundo. Confesso que nestes dias quase não consigo pensar em mais nada a não ser neste desporto que me continua a fascinar.Amanhã estaremos de novo nas serras algarvias entre os melhores do mundo.

DIA 5: "HÁ COISAS QUE NOS CUSTAM MESMO ENTENDER..."
O dia começou com algumas nuvens, mas na RMC todos partiam animados. Os quatro carros da equipa continuavam em prova e o nosso não dava nenhum sinal de desgaste, mesmo depois da duríssima etapa de ontem. Entrámos em Santa Clara com o andamento necessário para não estragar a mecânica e terminar o dia sem dores de cabeça. A especial foi perfeita. 
Depois Santana da Serra, o mais longo e duro troço deste rali de Portugal. Já nos procedimentos de partida comentei com o Janela que me parecia termos pouca gasolina, mas nunca nos passou pela cabeça que não estivesse no depósito a quantidade suficiente para terminar a especial. No começo da ronda optámos por encher o depósito, o que nos daria mais de 60 litros, quando o consumo máximo estimado seria de 50 e poucos. Não cabia mais, por isso ia a gasolina normal para estas etapas. As regras do mundial impõem a utilização de gasolina apenas fornecida pela organização, em pontos fixos. Não podemos abastecer noutros lugares. 
A meio da demolidora especial o carro falhou numa curva mais lenta e quando olhei para o painel já estava acesa a luz de reserva. Estávamos por volta do quilómetro 17 de uma especial de 31 quilómetros. Pensei que seria apenas um problema momentâneo por causa da inclinação do carro e continuámos no mesmo ritmo. Mais à frente, pouco depois do quilómetro 20 o carro quase parava. O Janela, ainda sem saber o que estava a acontecer animou-me dizendo; “ Vai lá João, não quebres agora o ritmo”. Respondi já muito preocupado; “Estamos sem gasolina”. O Janela nem queria acreditar e ainda disse que não podia ser umas quantas vezes. Percebi que era mesmo gasolina, baixei o ritmo desligando o ALS e guiando quase sempre em quinta, aproveitando as descidas. Fomos quase em silêncio, com o Janela a ditar apenas as notas, percebendo que seria muito difícil fazer aqueles 10 quilómetros assim. Lá fomos, até à última subida onde o carro parou, quando faltava um quilómetro para o fim. 
Explodi de raiva, questionei os pontos de reabastecimento admitindo mesmo uma hipotética mas muito pouco provável falha do Janela. Ele ficou calmo, lendo de novo todas as indicações para me confirmar sem nenhuma dúvida. Está tudo certo com os abastecimentos, o problema é apenas nosso. O carro consumiu demasiado ou temos uma fuga de gasolina. Saímos e tentámos perceber o que se passara… mas ficamos sem respostas. 
Lá fomos rebocados até ao final da especial. Chegaram então uns litrinhos de gasolina e lá levámos o carro até ao parque de assistência onde todos nos esperavam incrédulos com o que estava a acontecer. A resposto para o enigma do dia chegou logo a seguir. O depósito tinha “encolhido” e não levava os 60 litros previstos. Confirmados os abastecimentos a conta era clara; apenas tínhamos começado a etapa com 44 litros, que só poderiam chegar para acabar a especial com muita, muita sorte. 
Depósito trocado, revisão completa ao carro e amanhã estaremos no último dia do melhor rali do mundo, este ano com uma versão particularmente dura e exigente.
Os ralis têm coisas destas e estamos sempre a aprender. Até amanhã para o final do rali.

DIA 6: "ACABOU O RALI!"
Os meus amigos talvez consigam imaginar a imensa alegria que sentimos ao chegar com o carro intacto ao final deste duríssimo rali. 
Os reconhecimentos foram muito complicados com chuva, muita lama, rios a transbordar, nevoeiro e um carro de série com pneus normais. Os ralis são assim para as equipas privadas de micro dimensão. Só sou um piloto como os outros quando começa a corrida e fico plenamente integrado da estrutura da RMC. É verdade que a partir desse momento nada nos falta, a não ser… gasolina, quando o depósito do carro resolve encolher sem aviso prévio. É a história que vamos guardar deste rali. 
Chegados ao parque de assistência, celebramos com a equipa o facto de termos concluído a prova, o objetivo primordial nestas coisas dos ralis, com a dureza e nível de exigência técnica, física e psicológica que uma prova do WRC implica. Prova superada mais uma vez.
Mas há uma outra que vos quero contar nesta última crónica desta aventura. Piloto e navegadora, vindos do Japão apareceram no Algarve com uma espécie de Toyota Yaris, com o mínimo dos mínimos que se pede a quem quer fazer um rali. 
Ele tem mais de 60 anos e já tinha vindo a Portugal noutras edições do Rali, ela era estreante na aventura. Como equipa de assistência traziam mais dois japoneses, com duas cadeiras de praia, uma pequena caixa de ferramentas um martelo e um rolo de fita-cola. A simples e simpática equipa foi rapidamente adotada pelo coração mole e bom dos portugueses que ajudaram em tudo. Até uma tenda de assistência lhes montaram para o final do primeiro dia. Abracei aqueles japoneses no final da prova e voltei a perceber que este desporto tem mesmo algo inexplicável que nos atrai e encanta. 
Aqui somos todos iguais, apenas diferentes quando entramos no carro. Somos todos loucos por emoções.
Voltaremos dentro de alguns meses para uma nova prova do mundial de ralis, onde colocaremos de novo à prova os nossos limites com a humildade necessária para aprender sempre com o que nos vai acontecendo. 
Obrigado à bela equipa da RMC, ao José Janela e aos que nos apoiaram nesta aventura.Hoje vou dormir mais feliz!

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